I cidade das acácias
lavo a peça, último trapo com cheiro a Portugal, será este o momento em que posso dizer: estou em Moçambique? como se fosse preciso baptizar roupa uma a uma, exorcizando a origem. é preciso ser daqui para estar aqui. chorei por uma vez, afinal aprendo que sempre estou noutro sítio também e que sou a mesma mas noutro lugar.
tenho um quadro de imagens interiores que conforme as dignas coisas do interior, não foram escolhidas, apenas passam sensíveis a distâncias, e são memórias e vontades. isto é a minha saudade. tenho um quadro de imagens exteriores que são rodinhas dentadas, frágeis, nem sei se afinadas, ou afinadas à sua maneira. isto é o mundo, visto daqui e de mim. não há facto ou certeza, muitas versões, eu trago a minha.
moçambicanos na rua, muçulmanos em empresas, indianos no comércio de loja, chineses na construção, portugueses e mais europeus. conduz-se à esquerda, na política e na estrada. embaixada, uma tipologia recorrente para o bem da humanidade. cidade que já foi e permanece no hábito de continuar a sê-lo. os caminhos fazem-se por ruas gastas à sombra da copa das árvores que teimaram ficar ou tentam eternamente a fuga. demasiados muros e arame farpado que não constavam no projecto de execução destas casas. chamam-lhe a cidade de cimento, os seis por cento que serviu o sonho, taça de onde todos bebem. gerou a cidade de hoje, os noventa e quatro por cento de superfície urbana da capital. não abranda, apareceu como uma espécie de mancha de óleo que se alastrou lenta, no tempo e na densidade. casas de auto-construção de um piso, quilómetro a seguir a quilómetro. cada uma representa um tremendo esforço por já não saírem da terra, o caniço já não serve, já não dura, já não é o sonho e também já não há. são de blocos de cimento, coleccionam-se sacos até ser suficiente fazer os blocos para pôr em pé uma divisão. passam muitos sóis até poder fazer a próxima. porque nada é linear, das expectativas quer-se o sonho da casa, tanto que se constrói as primeiras divisões considerando anexos, um estaleiro de obra eterno para uma casa que há-de ser feita. organizam-se, pagam e o topógrafo particular ordena como se lhes tirasse o bilhete para que ganhem direito aquele talhão (lote). rua e habitação, não há lugar para qualquer outro programa. os direitos sociais são importantes, são interessantes e tantas vezes são incompatíveis com as condições reais ou com a cabeça que manda.
de mais barato só cigarros e os chapa (uma carrinha Toyota para quantos se quiser imaginar). poderiam partilhar do mesmo rótulo advertivo.
fujo ao concreto de imagens e deixo isto e o que sabem, como se fosse mais uma das cidades invisíveis da nossa imaginação: Maputo a cidade das acácias.
mónica loureiro
4 de outubro de 2010 às 15:59
Ai Mónica, gostava de poder escrever alguma coisa com um décimo da poesia deste texto mas, à falta de inspiração, limitar-me-ei a confirmar-te que li e gostei. Muito.
Um abraço cheio de saudades,
Margarida topo
9 de outubro de 2010 às 06:43
Que bonito, mónica, de deliciar. Passa a ser mesmo uma página que acrescento às minhas cidades invisíveis, essa que sinto mesmo estar a ser vista por dentro, e de tão distante que está. Só servem estas palavras para vos desejar muita coisa boa, entre elas calma e força interior. Um beijo meu, daqui,
André topo
13 de outubro de 2010 às 11:54
Falha o cheiro e a cor, um pouco mais do que for
Memória do quarto inteiro, gavetas do roupeiro,
Sobram as madeiras e as telas, manchas de aguarelas.
Verdades escondidas num pano azul de céu
Que o mesmo quem o teceu, fê-lo de um jeito amador.
Sentidas com diferente calor, dependendo do lugar da terra,
Recordam o que se cerra do outro lado do horizonte.
Outros, sem água, beberão de outra fonte, outra sorte terão.
Inteiros no seu ser saberão que as malhas da memória são
Tecidos guardados num roupeiro sem chave, onde
Belos, na falha da memória, sobram verdades que sentidas recordam outros inteiros tecidos belos.
=)* saudoso
_ismael topo